Com características químicas e farmacológicas únicas no mundo, a própolis vermelha, produzida nos manguezais do Estado de Alagoas, é um produto que teve sua Indicação Geográfica (IG) registrada em 2012, na modalidade “Denominação de Origem” (DO). A certificação foi concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), órgão responsável por este tipo de cadastro no País.

Sua peculiaridade vem da ação de abelhas africanizadas (Apis melífera) que, com suas patas, retiram da planta, popularmente conhecida como “Rabo de Bugio” (Dalbergia ecastophyllum), uma substância resinosa de coloração avermelhada e aroma balsâmico. Depois disto, elas transportam o material até a colmeia, onde é transformado após a ação salivar destes insetos.

A IG agrega valor ao produto, abrindo novas possibilidades para os agricultores — neste caso, para os apicultores da região e comunidades alagoanas.

Esta certificação — primeira denominação de origem do setor e a terceira do País — é reconhecida internacionalmente, fato que dá direito à própolis vermelha carregar um selo, permitindo a utilização do nome geográfico, com indicação de origem, e alcançando, a partir daí, maior valor agregado nos mercados interno e externo.

Com a Indicação Geográfica concedida à produção alagoana de própolis vermelha, o Estado passou a ser reconhecido como o único produtor deste item em todo o mundo, título que ajuda, inclusive, a proteger a biodiversidade brasileira.

Procedência
Registro IG 201101 
INPI: Denominação de Origem/2012 
Delimitação: Localiza-se nos municípios do litoral e complexo estuarino lagunar, no Estado de Alagoas

Propriedades diferenciadas

O “ouro rubro”, como a própolis vermelha também é chamada por muitos pesquisadores, atrai a atenção de cientistas de todo o planeta e a concessão da IG atesta que este produto, originalmente nacional, contém propriedades diferenciadas em relação a outros 12 tipos de própolis, já catalogados no País.

Victor Vasconcelos Carnaúba, pesquisador da própolis vermelha e mestre em Análise de Alimentos e Segurança Alimentar, comemora as conquistas das novidades que envolvem o extrato alagoano. “O produto é 100% natural e as pesquisas ainda não relatam nenhum efeito colateral, o que é um impositivo para torná-lo ainda mais importante”, garante.

Descobertas mais recentes são bem animadoras: a seiva do “ouro rubro” vem trazendo resultados positivos no controle de diabetes, hipertensão, câncer e até HIV , segundo Carnaúba. No primeiro caso, a própolis vermelha regula o controle da glicose no sangue; no segundo, age como vasodilatador, aumentando os vasos sanguíneos e melhorando o fluxo do sangue. No terceiro caso, ajuda a eliminar os radicais livres, que estão ligados aos processos degenerativos do organismo humano. Nas pesquisas de HIV , a seiva tem impedido que o vírus se reproduza nas células, reduzindo os sintomas da doença em portadores da doença.

“Em doenças como câncer e HIV , as drogas sintéticas têm efeitos muito pesados e negativos, que contribuem até para o abandono do tratamento, como a queda de cabelo, diarreia, náuseas e manchas na pele, ao contrário dos medicamentos encontrados na natureza”, defende o pesquisador. Ainda destaca que “a própolis vermelha não é utilizada como substitutivo do tratamento, mas como complemento que atua, muitas vezes, na prevenção”.

Durante as últimas pesquisas, Carnaúba também descobriu mais uma qualidade da própolis vermelha: a seiva é um poderoso conservante natural de alimentos. “Fiz testes com queijo coalho e iogurte e o extrato melhorou em até dez dias o tempo de qualidade na conservação dos produtos”, relata.

Características

A própolis vermelha in natura apresenta coloração avermelhada, sabor balsâmico e aroma anis-adocicado. É rígida em temperatura abaixo dos 20º C e consistente maleável entre 20 e 40º C.

De acordo com o professor Ticiano Gomes, do Grupo de Pesquisa em Tecnologia e Controle de Qualidade de Medicamentos da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), suas propriedades únicas trazem diversos benefícios para a saúde, como prevenção de doenças cardiovasculares, osteoporose e combate ao colesterol.

Também é indicada para dermatites, ferimentos, inflamações e infecções, por ser anti-inflamatória, antioxidante, cicatrizante e, até mesmo, antitumoral. Além disto, é utilizada para fabricação de pastas de dente, soluções de bochecho, balas, entre outros produtos.

Propriedades

Estudos revelam ainda que o “ouro rubro”, extraído das colmeias das abelhas africanizadas de Alagoas, pertencia a um novo grupo de própolis, com características químicas e farmacológicas especiais. Suas propriedades biológicas estão diretamente ligadas à própria composição química.

Também se diferencia por seu alto teor de compostos fenólicos, especificamente isoflavonoides, os quais nunca foram encontrados em nenhuma outra própolis. Vale ressaltar que foi classificado como um novo tipo de própolis por causa de sua origem vegetal: a leguminosa “Rabo de Bugio” (Dalgerbia ecastophyllum), planta nativa e característica das áreas de mangue do litoral alagoano.

Comércio

O acompanhamento técnico para o aumento da produção, as ações trabalhadas coletivamente e o emprego de ferramentas gerenciais trazem, para a própolis vermelha, possibilidades de ampliar seu comércio em território nacional e no exterior.

Após a certificação de Indicação Geográfica, “Alagoas passou a ser reconhecido como o único produtor da própolis vermelha certificada no mundo, fato que protegerá a nossa biodiversidade e trará mais desenvolvimento ao nosso Estado”, destaca Amanda Bentes, analista de Agronegócio do Serviço Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em Alagoas.

Para o empresário Mario Calheiros, presidente da União dos Produtores de Própolis Vermelha do Estado de Alagoas (Uniprópolis), a certificação, concedida no dia 29 de maio de 2012, foi resultado de mais de dez anos de trabalho dos produtores, em conjunto com o Sebrae. “Como gestores do selo, estamos estruturando, cada vez mais, nossa cadeia produtiva e agregando valor ao nosso produto. Como se trata de um item para a indústria farmacêutica, temos sempre de aprimorar nosso processamento”, ressalta.

Produtos farmacêuticos

Desde 1996, quando o curso de Farmácia foi implantado na Universidade Federal de Alagoas, a própolis vermelha vem sendo alvo de estudos na área de Fitoquímica da unidade de ensino. Suas propriedades já chamavam a atenção, mas foi em 2005 que o professor da Ufal Ticiano Gomes do Nascimento, doutor em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos, intensificou as pesquisas em torno deste extrato.

“Começamos por obter extratos brutos de própolis vermelha com atividade antimicrobiana. Naquela época, produzimos xarope de própolis e elixir melitos”, lembra Gomes.

Três anos mais tarde, os trabalhos ganharam maior reforço, após a contratação do professor Irinaldo Diniz Basílio Junior, também doutor em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos; e com a aquisição de novos equipamentos, como o spray dryer.

“A partir daí, pudemos desenvolver microencapsulados de própolis vermelha de dois tipos: o gastrorresistente, que retarda a liberação no estômago e libera o medicamento no intestino; e a segunda geração, que é de liberação controlada. Temos, então, dois microencapsulados que podem ser transformados em dois produtos”, informa Gomes.

Após a solicitação do depósito de patentes junto ao IN PI, nos anos de 2012 e 2014, a tecnologia desenvolvida para a produção dos microencapsulados de própolis vermelha é mantida sob sigilo (até o fechamento desta edição de A Lavoura).

Suplemento alimentar

As pesquisas desenvolvidas pela Ufal já comprovaram que o “ouro rubro” pode ser usado no combate às bactérias multirresistentes, encontradas em ambiente hospitalar. Também é eficiente para o tratamento tópico das feridas em humanos, provocadas pela leishmaniose. Ainda tem propriedades antioxidantes, ou seja, elimina os radicais livres; ação antimicrobiana, podendo ser utilizado como opoterápico, de terapêutica complementar no tratamento da Aids; e ainda ser aplicada na prevenção de câncer.

Até na indústria cosmética a própolis pode ser usada na produção de xampus para eliminar caspa, por exemplo, segundo informações dos pesquisadores Ticiano Gomes e Irinaldo Diniz.

Localização

Os manguezais alagoanos ficam na região litorânea e lagunar do Estado de Alagoas. Banhados pelo Oceano Atlântico, possuem um clima tropical úmido, sem grandes oscilações térmicas ao longo do ano, com períodos chuvosos no outono e inverno, e secos na primavera e verão. Eles têm um tipo de vegetação arbóreo-arbustiva, que se desenvolve nos solos lamosos dos rios tropicais e subtropicais, em uma zona de transição entre os habitats de água doce e salgada.

Dentre as atividades sustentáveis, realizadas pela população alagoana das zonas costeiras e ribeirinhas, está a apicultura, bastante incentivado como forma de produção agrícola. Isto porque a criação de abelhas, além de trazer lucros ao produtor, favorece o equilíbrio biológico dos ecossistemas, por intermédio da polinização destes insetos, e minimiza o impacto ambiental.

A região dos manguezais de Alagoas representa um ecossistema fundamental para a estabilidade da geomorfologia costeira do Brasil, a conservação da biodiversidade e a manutenção de amplos recursos pesqueiros. Trata-se de um patrimônio ambiental, cultural, econômico e social de alta relevância para o País.

 

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Fonte: Revista A Lavoura edição nº 714/2016